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A PRODUÇÃO DE SENTIDOS DE CURRÍCULO: O
PROJETO PEDAGÓGICO EM QUESTÃO
Prof.ª Dr.ª Ana Maria Eyng – PUCPR -
Líder do Grupo de Pesquisa
Projeto Pedagógico e Avaliação Institucional na Educação Superior
Nos estudos realizados do grupo de pesquisa em currículo, grupo integrante
da linha de pesquisa em Políticas e Gestão da Educação Superior do
Programa de Mestrado em Educação da PUCPR, o tema é abordado na sua
relação com a avaliação institucional. O currículo é concebido como
Projeto Pedagógico e incorpora as dimensões mais amplas e dinâmicas do
fenômeno educativo. Essa concepção apóia-se nas políticas nacionais da
educação e na produção científica desse campo de investigação, como se
verá a seguir.
O currículo, ou seja, o projeto pedagógico é entendido sempre como
processo, resultante dos significados construídos socialmente que, ao
mesmo tempo em que se apóia no conhecimento e na trajetória historicamente
construídos, faz uma projeção de futuro, é ao mesmo tempo instituído e
instituinte. O projeto pedagógico e a avaliação institucional se
configuram como estratégias primordiais na gestão da ação educativa que
objetive a conquista de uma maior autonomia com vistas a construção da
identidade institucional.
O campo do currículo, desde os primeiros estudos no início do século
passado, tem se movido em busca de sentidos que permitam a superação das
controvérsias que tem provocado. É importante destacar que esta “indagação
histórica da concepção de currículo, nos adverte que foi concebido como
uma forma de organização e um instrumento de eficiência social, isto é,
uma estrutura organizativa imposta por autoridades educativas para
‘ordenar’ a conduta da escolaridade” (ÂNGULO RASCO, 1994, p.17). Esse
caráter prescritivo perpassa as representações e práticas educativas até
hoje. Por outro lado, a diversidade de posicionamentos e experiências
torna extremamente enriquecido o seu estudo, no qual “a análise adequada
do currículo há de estender-se desde um extremo propriamente prescritivo a
outro propriamente interativo” (ÂNGULO RASCO ,1994, p.19).
Contudo, a concepção e delimitação do currículo embora expressem
diferentes representações que orientam ações também diferentes, sempre
indicam uma intencionalidade, função, princípios, características,
abrangência e se refere a um contexto particular em que se concretiza a
ação da escola como instituição social. Contreras afirma que um currículo
é sempre uma solução, ainda que provisória e discutível em seu valor e em
suas formas de expressar-se em relação a um problema educativo, e que o
papel de pesquisadores e educadores “consiste precisamente em encontrar e
levar a cabo soluções práticas aos problemas educativos em que nos
encontramos”( (1994, p.32) Portanto, o currículo se refere tanto à
representação quanto à ação e integra aspectos prescritivos aos aspectos
interativos num contexto determinado e determinante. Ângulo Rasco (1994)
apresenta as concepções de currículo em relação aos âmbitos da
racionalidade, indica o currículo como conteúdo, representação da cultura,
como planificação educativa, representação da ação e como realidade
interativa.
O projeto curricular como processo é fruto da ação-reflexão-ação coletiva,
ou seja, implica na construção conjunta da unidade da ação orientada no
princípio da participação. E projeto pedagógico segundo Vasconcelos (1995,
p.145), é “sistematização, nunca definitiva, de um processo de
planejamento participativo, que se aperfeiçoa e se concretiza na
caminhada, que define claramente o tipo de ação educativa que se quer
realizar”. Nesse sentido e, em conformidade com os artigos 12, 13 e 14 da
LDB número 9394/96, a gestão do projeto da escola é responsabilidade
compartilhada, de maneira que todos os profissionais da escola são
gestores do seu projeto. A gestão democrática mediante participação
coletiva é princípio que se aplica tanto ao Projeto Pedagógico
Institucional – PPI quanto aos Projetos Pedagógicos de Curso – PPC na
educação superior.
A produção de sentidos sobre o campo do currículo, a partir das pesquisa
realizadas pelo grupo e dos projetos em andamento, permite indicar como
perspectiva, diante dos desafios postos à educação, advindos das novas
necessidades da sociedade num contexto em transformação, a
operacionalização de projetos pedagógicos referendados nas reflexões sobre
a construção coletiva do currículo no movimento ação-reflexão-ação em Carr
e Kemmis (1985), Sancho(1990), Stenhouse (1991), La Torre( 1993),
Contreras (1994), Ângulo Rasco e Blanco Garcia( 1994), Santomé
Torres(1994) Vasconcelos (1995), Gimeno Sacristán(1995), Gimeno Sacristán
e Pérez Gomez(1995), Veiga(1996), Gadotti (2000), e Eyng (2002, 2003, 2004
e 2005). Destacando, ainda, a consideração da necessária contextualização
em Freire(1980), a vinculação da formação continuada ao projeto da escola
em Nóvoa (1995) a viabilização do processo reflexivo em Shön (1995) tendo
em vista a compreensão interdisciplinar do conhecimento que representa a
realidade.
Os pressupostos teórico-práticos mobilizados na gestão coletiva da
proposta pedagógica sistematizada no projeto pedagógico de uma instituição
ou curso, se organiza em três dimensões básicas, complementares e
indissociáveis: ideológico-explicativa (teórico), contextual (realidade) e
operacional (prática), sendo estas perpassadas por uma quarta dimensão: a
avaliativa.
Do ponto de vista conceitual, o PPI se configura naquelas três dimensões;
no entanto, na sua concretização, a IES estabelece os fundamentos que
constituem cada um daqueles âmbitos. Assim sendo, podem ser denominados de
fundamento teórico-explicativo, fundamento contextual e fundamento
operacional.
No fundamento ideológico-explicativo, a Instituição de Educação Superior –
IES define os princípios e valores nos quais se apóia e que pretende
adotar como referência para o conjunto de suas ações educativas. Os
princípios epistemológicos e pedagógicos do projeto norteiam a missão, a
visão, a concepção de Universidade e de suas funções de ensino, pesquisa e
extensão e a conseqüente forma de gestão que adota na concretização das
ações institucionais. Indica o rumo, orienta a ação que a instituição se
propõe seguir. São “formulações-tendência” segundo Antúnez (1998, p.25).
Os princípios epistemológicos e pedagógicos são definidos via explicitação
dos fundamentos: epistemológico, sócio-político, antropológico,
psicológico e pedagógico que, no conjunto, orientam o processo educativo
em termos teóricos ideais para um determinado tempo e espaço que atendam
as necessidades e expectativas dos indivíduos e da sociedade.
O fundamento contextual articula as características e necessidades
advindas da transformação na sociedade aos aspectos próprios da vocação e
trajetória institucional. A descrição e análise do contexto social e
institucional orienta o processo decisório, permite ainda atualizar,
referendar ou corrigir decisões quanto ao processo educativo na
instituição. As decisões “derivam das marcas de identidade, do diagnóstico
da instituição e do seu entorno, da experiência institucional acumulada e
das políticas que indicam os objetivos da educação para cada etapa”. (Antúnez,
1998, p.25)
O fundamento operacional orienta a concretização das ações institucionais,
pautadas nas orientações e influências emanadas dos fundamentos
apresentados; assim, os pressupostos teóricos e os aspectos da realidade
convergem e orientam a prática. Tem-se, pois, pois a vinculação da
intenção e da ação, ou seja, teoria e prática institucional na
concretização do projeto pedagógico. Nesse âmbito é sistematizada a
modalidade de organização curricular que, para o contexto atual, se
orienta no currículo integrado. A operacionalização do projeto curricular
integrado se efetiva, sobretudo quando tem como eixo a problematização da
pesquisa interdisciplinar na construção coletiva do conhecimento
contextualizado, que viabilize uma formação integral pautada na
compreensão interdisciplinar e critica do mundo do trabalho e da realidade
social.
A proposta que defendemos é a da inserção da pesquisa da prática
profissional nos cursos de educação superior e da pesquisa da prática do
cotidiano na educação básica, de forma a perpassar todo o processo de
integralização curricular. Dessa forma, a pesquisa será a principal
estratégia de aprendizagem, manejada pelo aprendiz desde o início de seu
curso e que irá lhe permitir a construção de uma sólida base de
conhecimento crítico, interdisciplinar e contextualizado. A capacidade
reflexiva desenvolvida lhe permitirá ainda auto-regular seu processo de
Formação Inicial e Formação Continuada, necessárias em um contexto em
rápida transformação.
Nessa perspectiva outro ponto fundamental a ser destacado se refere aos
conteúdos curriculares, uma vez que a centralidade do processo curricular
não está mais no conteúdo disciplinar e sim na interdisciplinaridade. As
disciplinas e seus conteúdos passam a se constituir ferramentas no
processo da construção do conhecimento contextualizado, ou, em outras
palavras, as diversas representações da realidade sistematizadas nas
diferentes áreas do conhecimento são auxiliares no processo de
conscientização do aprendiz, que busca desvelar a realidade que habita
como profissional-cidadão. Os conteúdos, como representações da cultura,
são selecionados em função de sua nuclearidade e em função de sua
capacidade em instrumentar a compreensão do objeto e/ou circunstância da
aprendizagem. Portanto, a seleção dos conteúdos das áreas do conhecimento
que serão trabalhados em cada projeto, uma vez que não se pode dar conta
de todo o conteúdo já sistematizado, se vale de dois critérios: a
nuclearidade e a atualidade pedagógica.
Os conteúdos nucleares se referem aos aspectos básicos de cada área,
estarão presentes em praticamente todos os projetos. Na educação básica,
por exemplo, na disciplina de Língua Portuguesa serão sempre trabalhados
conteúdos que permitam a compreensão e expressão oral e conteúdos
relacionados à compreensão e expressão escrita: são conteúdos nucleares.
Por sua vez, os conteúdos de atualidade pedagógica dependerão da dinâmica
das demandas de cada projeto, de cada grupo e contexto, tema e sub-temas
trabalhados, o contexto no qual se inserem e ainda as atividades
realizadas, que indicarão quais os conteúdos necessários.
O projeto pedagógico é, portanto, a indicação das marcas balizadoras da
ação institucional, tem sempre caráter próprio e se constitui na carta de
identidade da instituição. E tem como funções:
apresentar a Instituição à comunidade interna - gestores, professores,
funcionários, e alunos e à comunidade externa - futuros alunos,
organizações parceiras e empregadoras;
orientar a construção e atualização dos projetos pedagógicos dos cursos
de graduação e pós-graduação;
orientar e servir de guia para qualquer ação individual ou coletiva de
ensino, pesquisa e extensão que se desenvolva na instituição ou em outros
espaços da comunidade por seus colaboradores;
ser referência nos processos de avaliação institucional;
O Projeto Pedagógico Institucional desempenha um papel fundamental na
tomada de decisão e concretização das ações capazes de efetivar com
qualidade as finalidades requeridas da Educação Superior. A definição da
identidade institucional inicia-se, pois, na compreensão clara da
finalidade formativa da instituição educativa que se consubstancia
mediante ações intencionais e integradas de ensino, pesquisa e extensão
definidas e operacionalizadas no seu projeto educativo institucional.
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